Sabe? Se eu te
contasse, talvez você entenderia porque as coisas acontecem assim. Você
entenderia porque as folhas caem no inverno também, ao invés de congelarem.
Entenderia porque eu uso uma roupa diferente todos os dias e porque tenho um
tipo de sorriso para cada situação. Mas tudo isso, apenas se você um dia
ficasse sabendo. Por enquanto, fique sem entender, não é preciso. Eu só queria
te contar, mas acabei escrevendo. De nada adiantaria falar se meu coração ainda
está desabrigado e ninguém o deixa entrar, nem mesmo eu permito.
E se você se sentisse como eu, talvez também não contaria e deixaria todos sem entender
nada. Acho que eu posso dizer que já desisti. Não totalmente, porque ainda
estou aqui, mas aos poucos isso vai passando... Engano meu, seu, nosso, deles.
Nunca passa se você esconde.
Às vezes, o pouco
tempo que tenho acaba tornando-se todo o tempo do mundo. Quando tenho pouco
tempo, escrevo músicas. Se estou escrevendo isso agora é porque me sinto com
todo tempo do mundo, sem ter com quem perder. Não mais. Porque hoje em dia
involuntariamente dividimos nosso tempo e espaço com alguém. Nada é somente
seu, o que eu não aceito, claro. Mas enquanto eu não te contar, você pode não
saber disso.
A mente humana se
acha controladora do que ela não é: pessoas. Porém, o que posso fazer eu com
direito se escondo o que sinto? Ninguém tem nada a ver com a dor alheia, mas
ela existe: estampada num sorriso, escrita numa folha de papel, na nota de uma
música e até mesmo na roupa, maquiagem ou cabelo.
Talvez se você
soubesse, essa dor não existiria, essa agonia de te querer sempre por perto
passaria e eu poderia perder meu tempo com você. Apenas sonho meu, pois sou
egoísta a ponto de preferir esconder. De nada adiantaria falar sendo última
opção.
Está frio lá
fora, ainda mais dentro de mim. E não sei o que dói mais: saber ou não saber
das coisas. Pareço quieta agora, concentrada e derivados, porém minha mente
está inquieta como um vulcão em erupção, pensando em tudo e em nada, devastando
tudo ao meu redor e dentro de mim. Tudo isso, e mais, porque você não sabe ou
não tem certeza.
Ah, se eu te
contasse, talvez você entenderia porque nem sempre o sol nasce, dando lugar a
chuva. Até mesmo o sol divide seu céu com as nuvens e seu brilho com as
estrelas.
Por mais que eu
queira, eu não sou o sol. Não tenho essa capacidade de dividir meu céu. Talvez
eu seja uma estrela esperando a hora de me colocar em meu lugar. E aí, você
estará esperando a lua chegar, sem perceber que existe uma estrela brihando
para você. Uma hora essa estrela vai se apagar e o sol vai dar lugar a chuva,
fazendo a lua desaparecer. E então, quem brilhará para você?
A natureza não
escolhe, mas tem o direito de escolher. Ser livre é isso, porém ninguém possui
tanta liberdade quanto quer. O desejo nada mais é do que um inimigo para nós.
Eu bem sei disso. Você deveria saber também, mas prefere aprender por si.
Grande erro, talvez. Mas agora, quem sou eu para dizer? Que escondo cada pedaço
de sentimento que nasce, o desejo que toma conta de mim aos poucos. Eu também
tive que abrir mão desse desejo e de tantos outros para deixar meu lugar de
estrela e deixar o sol voltar a brilhar. Porque afinal, mesmo os amantes das
estrelas querem ver o sol e esperam por ele ansiosamente toda manhã.
Acho que sou uma
estrela virando chuva indesejada no final de semana, aquela que atrapalha
planos alheios sem intenção.
Perder você é
pior do que parar de brilhar, é como viver num mundo sem ar. E apesar de
guardar tudo o que não quero contar, sinto como se fosse melhor assim. Se eu
deixasse agora de brilhar seria suicídio. Mas o que você diria sobre isso?
Certamente colocaria outra estrela no meu lugar, porque é isso o que acontece
com as pessoas também: substituem e são substituídas. O mundo é feito de
substituições e trocas, perdas e, com muita sorte, ganhos.
Se eu soubesse
que um dia perderia meu brilho, nunca teria virado estrela e tentaria ser o
sol, que é tão desejado e querido por todos, que é tão generoso a ponto de
dividir seu brilho e seu céu.
Aqui dentro me
sinto como chuva, mas lá fora sou estrela tentando virar lua.
Acabou de chover
por um tempo, eis então a alegria de alguns. Ainda quero te contar, mas não
posso. É tão mais fácil apenas sentir, portanto, fique sem entender. E eu, sem
aceitar. Não me pergunte por que as coisas ocorrem desta maneira, pois não
posso dizer... talvez nem eu saiba e estou procurando entender.
Ainda não
comentei sobre a lua, essa qual o sol tanto admira. Eu odeio a lua e também
odeio o fato de ter que dividir meu céu com ela. Porque eu, apesar de também
ser importante, sou apenas uma estrela, nada além disso, e tenho que dividir
meu céu e meu sol como se isso fosse justo. Apenas as outras estrelas precisam
de mim, estrelas como eu. Nada somos diante de tão ofuscantes astros.
Se você soubesse,
caso eu te contasse, talvez entenderia tudo isso. Entenderia quem é quem, o que
somos e o que podemos ser. A natureza nos permite escolher, basta eu te contar
e você saber.
Contudo, o medo
impede as pessoas de fazerem coisas que as deixem felizes. O medo, assim como o
desejo, também é nosso inimigo. Ao parar para pensar no feito e não feito, a
dor aumenta. Aperta o peito, toma conta dos pensamentos e afugenta a mínima
coragem ainda existente. Eu, você, qualquer pessoa... todos precisamos de uma
fonte apoiadora. Você é a minha. Se eu sou a fonte de alguém, não tenho conhecimento.
Quem é sua fonte?
Quem é o seu refúgio nos momentos em que seu estado de espírito adoece?
Gostaria eu de saber, ou de ser. Mas sou apenas uma estrela ofuscada pela linda
lua, não podemos esquecer.
Dentro de mim há
nuvens e um inverno com chuvas que não cessam. Há também um manual
incompreensível de como defender a galáxia e algumas cifras decoradas. A música
é algo que me ouve sem reclamar. Na verdade, ambas nos entendemos. Música é
harmonia, é paixão desenfreada. Aliás, sua voz é como música para os meus
ouvidos, pois estrelas também cantam, ouvem e amam.
Sem querer estou
te contando, é possível perceber? O sol é capaz de ouvir uma estrela enquanto
admira a lua?
Voltando a ser
chuva indesejada, aquela que você sabe que precisa, mas que não quer que
ocorra. Aquela que traz de volta a vida quando está morrendo e a esperança
quando está acabando.
Se você soubesse,
entenderia como me sinto fora de órbita ao seu lado, e também quando estamos
distantes. E sempre que eu tento me aproximar, eu receio fugir para bem longe e
mesmo assim te encontrar. É complexo, sabe? Nenhum manual explica, mas um olhar
ou um abraço diz. Diz para quem quer ouvir e também pode esconder, na maioria
das vezes.
Então, pare de
observar a lua e preste atenção na estrela. Ela está brilhando para você, que
se põe ao anoitecer dando lugar à lua. Até quando essa estrela vai brilhar? E
quando ela se apagar? Deixe-a ser a lua por alguns instantes, ela quer sua
atenção, se sente sozinha e não possui imensidão.
Mas, por favor,
não olhe para a estrela errada. Eu sei que em meio a tantas, isso é possível
acontecer. Ser estrela também tem lá suas complicações, principalmente por ser
muito comum. Há os que dizem que estrelas são anjos que observam a terra e há
os que dizem que são cometas que passaram milhões de anos atrás pela terra. Eu
sou apenas uma estrela, nada além disso. Quem dera ter sido cometa um dia, quem
dera ser anjo...
Isto não é uma
carta, caso fosse, já teria sido endereçada e enviada. Pararia por aqui, sem te
contar nada dizendo tudo. Ainda não acabou, por isso não possui remetente
registrado. Nenhuma história tem fim, ainda mais comparada a astros eternos.
Depois disso, todo mundo acaba virando estrela como eu.
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